As Perfeições, livro de Vincenzo Latronico, e Devoradores de Estrelas, filme de Phil Lord e Christopher Miller
Pedro Ernesto Rocha e Katryn Rocha
As Perfeições, livro de Vincenzo Latronico
“Tudo é absolutamente perfeito, (…) Exatamente como aparece nas fotos.”
Imagine que você trabalha exclusivamente de forma on-line, o que te permite morar em qualquer lugar do mundo. Então, você gasta o pouco que tem e vai para Berlim.
Passa seus dias em um loft repleto de plantas, decorado a seu modo, em uma cidade cosmopolita que tem muito a oferecer. Poucas horas de viagem o separam de alguns dos principais pontos turísticos do mundo. Você trabalha com o que gosta, não é rico, mas vive bem; não falta dinheiro para curtir o que a metrópole tem a te oferecer.
Parece bom, né? Parece… perfeito.
Você vive a era do Instagram, por isso é natural compartilhar ali seu estilo de vida: um notebook estrategicamente posicionado em um lugar lindo e convidativo, a marcação do lugar em que você está e a sugestão que essa imagem traz sobre as prazerosas maneiras com que você ocupa suas horas (as livres e as que passa trabalhando).
A vida de um jovem casal europeu que vai viver fora do seu país de origem e depois resolve circular como nômade digital. Essa é a proposta narrativa do livro vencedor do prêmio Strega e do prêmio Mondello, As Perfeições, de Vincenzo Latronico.
Mas, a proposta reflexiva é mais densa. Quanto do sentimento que nós temos acerca de nossas próprias vidas deriva das percepções positivas ou negativas que os outros emitem sobre elas a partir dos nossos stories? A nossa “autossatisfação” depende da sensação de despertar inveja nos que acompanham nossos stories? Quanto daqueles sentimentos que transmitimos em nossos stories são sentimentos reais nossos?
As Perfeições é rápido e moderno. Efêmero? Não.
Pedro Ernesto Rocha
Coordenador da Equipe de Consultoria do VLF Advogados
Devoradores de Estrelas, filme de Phil Lord e Christopher Miller
Devoradores de Estrelas é um filme de ficção científica dirigido por Phil Lord e Christopher Miller, e é baseado no livro homônimo de Andy Weir, autor também conhecido por Perdido em Marte.
Uma das principais questões que atravessa a experiência do filme é justamente a relação entre catástrofe e esperança. O longa parte de uma premissa de alto risco: Ryland Grace, vivido por Ryan Gosling, acorda sozinho em uma espaçonave, sem memória, e aos poucos descobre que sua missão está ligada à tentativa de impedir a morte do Sol e, consequentemente, a extinção da humanidade. O filme, entretanto, parece interessado menos em explorar o desespero absoluto e mais em defender uma visão luminosa da ciência, da colaboração e da possibilidade de conexão mesmo em circunstâncias extremas.
A ameaça cósmica é gigantesca, mas o foco dramático permanece no indivíduo: um professor de ciências deslocado de seu mundo, tentando reconstruir a própria identidade enquanto compreende a dimensão de sua responsabilidade. Grace não é apresentado como um herói militar ou um astronauta clássico, mas como alguém cuja força vem do raciocínio científico, da curiosidade e de certa vulnerabilidade emocional. Essa escolha torna o protagonista mais próximo do público e ajuda a equilibrar a escala épica da narrativa com um núcleo afetivo bastante acessível.
O otimismo do filme não nasce de ingenuidade, mas de método. A ciência aparece como ferramenta narrativa e ética: observar, testar, errar, corrigir e cooperar. A direção de Phil Lord e Christopher Miller favorece esse movimento ao combinar tensão com leveza, sem transformar a aventura espacial em um drama excessivamente sombrio. Há humor, encantamento e senso de descoberta, elementos que dialogam com o estilo de Andy Weir, cuja obra frequentemente aposta em personagens resolvendo problemas aparentemente impossíveis por meio de conhecimento técnico e improviso inteligente.
A presença de Eva Stratt, interpretada por Sandra Hüller, acrescenta uma camada moral importante à história. Como figura ligada à organização da missão, Stratt representa o pragmatismo extremo diante de uma crise global. Sua função dramática é tensionar a ideia de heroísmo: salvar o mundo pode exigir decisões frias, desconfortáveis e até violentas do ponto de vista emocional. É nesse contraste entre o idealismo científico de Grace e o cálculo estratégico de Stratt que o filme encontra parte de sua complexidade.
Outro ponto decisivo é a relação entre Grace e Rocky, dublado por James Ortiz. Sem entrar em revelações excessivas, essa amizade inesperada desloca o filme de uma narrativa de sobrevivência individual para uma história sobre comunicação, alteridade e confiança. O encontro com o outro, radicalmente diferente, não humano, desconhecido, reforça o otimismo central da obra: a inteligência não basta se não houver empatia. É justamente essa dimensão afetiva que impede Devoradores de Estrelas de ser apenas um exercício de “ciência aplicada” em forma de blockbuster.
Devoradores de Estrelas não é otimista porque ignora a catástrofe, mas porque insiste que conhecimento, cooperação e amizade ainda podem ter força diante do fim. Seu maior mérito está em transformar uma ameaça astronômica em uma história íntima sobre confiança. Mesmo quando simplifica certos conflitos, o filme entrega uma ficção científica envolvente, emocional e esperançosa, capaz de lembrar que imaginar futuros melhores também é uma forma de resistência.
Katryn Rocha
Auxiliar de Comunicação do VLF Advogados