Cisnes Selvagens, livro de Jung Chang, e Pequenas Cartas Obscenas, filme de Thea Sharrock
Anna Júlia Silva Costa e Katryn Rocha
Cisnes Selvagens, livro de Jung Chang
As histórias são sempre mais bem contadas pelo avesso. Não pelos heróis manifestos, mas por aqueles que viviam enquanto eles existiam: nos bastidores, nos corpos, nas escolhas de quem não era bem-vindo no centro da narrativa. Cisnes Selvagens apresenta uma história da China mais real do que qualquer versão oficial que eu havia lido antes, justamente por contar as histórias de suas mulheres.
Publicado em 1991, o livro é a autobiografia de Jung Chang, que reconstruiu a trajetória da própria família ao longo do século XX chinês – da Era dos Senhores da Guerra à Revolução Cultural de Mao. O resultado é uma obra que atravessa décadas de horror com precisão que não é fria, mas íntima: a precisão de quem está contando a história da própria gente.
O que surpreende é que, sendo tão denso em acontecimentos históricos, o livro nunca deixa de ser, antes de qualquer coisa, uma história sobre mulheres – e sobre o que cada geração herda da anterior sem saber. A avó Yu Fang, vendida como concubina aos quinze anos. A mãe, que acreditou na revolução e foi traída por ela. E Jung Chang, que escreveu o livro como quem faz as pazes com uma herança que nunca pediu.
Cisnes Selvagens foi traduzido para mais de quarenta idiomas e vendeu mais de quinze milhões de cópias. O número impressiona, mas não explica o livro. Ele permanece porque faz o que toda grande autobiografia faz: ao contar a história de uma família, conta a história de muitas.
Anna Júlia Silva Costa
Advogada da Equipe de Contencioso Cível do VLF Advogados
Pequenas Cartas Obscenas, filme de Thea Sharrock
Baseado na história real de um escândalo dos anos 1920, Pequenas Cartas Obscenas é uma comédia ácida deliciosamente malcriada, do tipo que te faz rir alto e, dois minutos depois, engolir o riso ao perceber o quanto aquilo é sobre controle, moralismo e quem paga o preço da reputação.
O filme funciona em duas frentes: como “quem fez isso?” (com cartas anônimas cheias de veneno) e como retrato de uma cidadezinha que adora apontar o dedo com a mesma energia que finge ser virtuosa. E aí entra a melhor parte: Olivia Colman e Jessie Buckley entregam um duelo de carisma e nuances.
Colman, fazendo o que sempre faz de melhor (roubar a cena), interpreta uma personagem que parece toda “certinha” por fora, mas por dentro é um emaranhado de medo e condicionamento social, enquanto Buckley é o caos puro, mas com coração de ouro, uma energia incontrolável que a cidade ama odiar porque é mais fácil do que encarar suas próprias hipocrisias.
O texto é esperto em como usa o humor para cutucar coisas bem feias: a hipocrisia social, o machismo institucional, a forma como mulheres são ignoradas mesmo quando estão certas, a rapidez com que uma comunidade escolhe um bode expiatório só porque ele não se encaixa no molde, o peso sufocante da respeitabilidade e essa mensagem, muitas vezes, chega junto com o riso.
Talvez não seja um filme que mudará sua vida, mas vai com certeza animar a sua tarde.
Pequenas Cartas Obscenas está disponível no Prime.
Katryn Rocha
Auxiliar de Comunicação do VLF Advogados