As Coisas que Perdemos no Fogo, livro de Mariana Enriquez, e Hamnet, filme de Chloé Zhao
Samuel Francisco e Anna Júlia Silva Costa
As Coisas que Perdemos no Fogo, livro de Mariana Enriquez
As Coisas que Perdemos no Fogo é um livro de contos lançado em 2016, no Brasil, pela editora Intrínseca. Escrito pela argentina Mariana Enriquez, autora que faz parte de um movimento que está crescendo no cenário literário, o horror feminino latino-americano. Mencionar esse movimento é importante para contextualizar a literatura de Mariana Enriquez em seu tempo, considerando, principalmente, que o horror utilizado não é gratuito, mas sim uma escolha estética das escritoras dessa corrente para denunciar as mazelas da sociedade, na América Latina e no Mundo.
Falando dos contos, de um modo geral, as histórias desse livro mostram como o abandono político e social tem como consequência drástica a concretização do horror na vida das pessoas mais vulneráveis.
Em “O menino sujo”, primeiro conto, a protagonista volta a morar em um casarão que foi de sua avó, localizado em um bairro da periferia da cidade, que, na época da construção, era um bairro nobre. Próximo à sua casa vivem uma mãe e um filho, em situação de rua. O horror se desenrola quando, um dia, a protagonista passa e não encontra eles no local de costume e, dias depois, encontra somente a mãe, que supostamente vendeu seu filho para uma seita para sustentar seu vício em drogas.
O conto final, que dá nome ao livro, “As coisas que perdemos no fogo”, fala sobre um grupo de mulheres que, cansadas do medo inerente à sociedade dominada pelos homens, decidem atear fogo em si mesmas até seus corpos se deformarem com as queimaduras, como uma resposta a toda a violência vivenciada, justificadas em sua aparência.
Esses são apenas dois exemplos em uma coletânea de doze contos incríveis que buscam, no macabro e no insólito, expor as feridas sociais e políticas do passado e do presente, não só da Argentina, mas de todos os lugares.
Enfim, parecem histórias sem fundamento, ficção exagerada, pesadas demais, mas, em tempos sombrios, de Epstein e tantos outros casos de violência contra a mulher, nada mais justo do que ouvir uma potente voz feminina de nosso tempo, denunciando os horrores da sociedade, sem deixar de lado a catarse de uma boa história.
Samuel Francisco
Advogado da Equipe de Contencioso Cível do VLF Advogados
Hamnet, filme de Chloé Zhao
Existe uma sensação muito particular quando se conhece a musa de um artista. É inegável que muito do significado da arte está na interpretação individual que fazemos dela, mas, quando temos acesso à fonte primária de inspiração de uma obra, contemplamos também todo um novo plano de sua existência e, claro, da existência do próprio artista.
Em Hamnet, Chloé Zhao nos leva em uma jornada pela história que inspirou William Shakespeare a escrever Hamlet. Com atuações impecáveis – especialmente das crianças, e um roteiro que mistura sutilmente fatos históricos com elementos de ficção, o filme é arrebatador do início ao fim.
O enredo, aqui, não é construído por meio de explicações sobre a trama da peça, ou de paralelos entre a vida real e a ficção. Com narrativa delicada, forte e profunda, o filme carrega uma história sobre luto, família e sobre o ser-artista.
Assim, Hamnet deixa uma forte mensagem sobre o poder e o papel da arte: não de traduzir, mas de transformar. O filme está disponível para compra no Amazon Prime.
Anna Júlia Silva Costa
Advogado da Equipe de Contencioso Cível do VLF Advogados