Uma Canção de Natal, livro de Charles Dickens, e Um Mistério Knives Out, trilogia de Rian Johnson
Anna Júlia Silva Costa e Katryn Rocha
Uma canção de Natal, livro de Charles Dickens
Provavelmente, você já ouviu falar na jornada de um senhor inglês muito rabugento que é visitado por três espíritos na noite de Natal – Fantasmas do Natal Passado, do Natal Presente e do Natal Futuro, e se vê em uma jornada de transformação interior para entender o significado do Espírito Natalino.
Se existe uma história capaz de traduzir o Natal através dos séculos, trazendo referências involuntárias em reuniões de fim de ano até hoje, é Uma Canção de Natal, de Charles Dickens.
Dickens escreveu o livro em 1843, em uma Londres que se consumia pelos efeitos mais duros da Revolução Industrial. Ao criar um conto sensível e acessível, o autor conseguiu tratar da responsabilidade individual frente a problemas de cunho coletivo, sem parecer um panfleto disfarçado de literatura.
O livro vendeu milhares de cópias em poucas semanas e contribuiu decisivamente para consolidar uma ideia de Natal associada à generosidade, ao convívio e à responsabilidade com o outro. Muito do imaginário natalino contemporâneo – da ceia compartilhada ao impulso de “fazer o bem” no fim do ano, deve mais a Dickens do que se costuma recordar.
A narrativa é curta, direta e surpreendentemente atual. Fala de trabalho, dinheiro, empatia e da possibilidade concreta de rever escolhas antes que elas se cristalizem. Tudo isso sem discursos moralizantes, mas com humor, crítica social e fantasmas suficientemente eloquentes para fazer qualquer leitor repensar sua própria contabilidade moral.
Leitura ideal para o intervalo entre o encerramento do ano e a reorganização (nem sempre tranquila) do próximo, Uma Canção de Natal segue atual justamente por não prometer soluções fáceis. A história não sugere milagres, apenas a possibilidade concreta e trabalhosa de rever prioridades, reconhecer excessos e ajustar rotas. Se o Natal ajuda nesse exercício, ótimo. Se não, Dickens ao menos oferece uma boa história para acompanhar a última tentativa do ano!
Anna Júlia Silva Costa
Advogada da Equipe de Contencioso Cível do VLF Advogados
Um Mistério Knives Out, trilogia de Rian Johnson
Os filmes Knives Out (2019), Glass Onion (2022) e Wake Up Dead Man (2025) confirmam Rian Johnson como diretor que usa o “Quem matou?” para radiografar estruturas de poder enquanto dá a Benoit Blanc (o detetive constante interpretado por Daniel Craig) um papel de bússola ética que muda de tonalidade a cada caso.
Em todos os filmes, Johnson parte de um mistério clássico, convoca um elenco em que todo mundo tem motivo, e então vira o tabuleiro com um movimento que recontextualiza o que vimos.
Blanc é o eixo: a cada capítulo, ele não muda o que faz (organiza fatos até a verdade cair aos seus pés), mas muda o que a verdade significa. Em Knives Out, ela emancipa quem foi explorado; em Glass Onion, desmascara a mediocridade com a diversão de um show; em Wake Up Dead Man, ela colide com compaixão e reabre a discussão sobre justiça e misericórdia.
Em todos os filmes, o mistério é um instrumento de crítica. Johnson recicla o prazer do quebra-cabeça para perguntar quem controla a história. E, ao dar a Blanc o poder (e o peso) de decidir como revelar, ele faz da solução um ato de responsabilidade.
Todos os filmes estão disponíveis na Netflix.
Katryn Rocha
Auxiliar de Comunicação do VLF Advogados