James, livro de Percival Everett, e Widow’s Bay, série da Apple TV+
Pedro Ernesto Rocha e Katryn Rocha
James, livro de Percival Everett
Sinto atração pela ideia de “ponto de vista”.
Há um filme de 2008 que se chama exatamente Ponto de Vista, com Dennis Quaid; ele conta a mesma história de atentado contra um político sob a ótica de vários personagens, o que faz com que, na verdade, existam várias histórias dentro de uma só.
Há também o gostoso samba “Ponto de Vista”, da banda Casuarina, que traz alguns lindos versos, como “Do ponto de vista da mãe todo filho é bonito”, “Do ponto de vista do mar quem balança é a praia”, e aquele que, para mim, é o mais curioso e filosófico, “Do ponto de vista da vida um dia é pouco”.
Acho interessante o exercício de tentar se colocar no lugar do outro e tentar perceber uma situação da mesma maneira que o outro. Além de interessante, esse exercício é importante para a vida em sociedade e para nosso dia a dia como advogados de negócios. E a coisa fica mais intrigante ainda quando pensamos nas limitações que cada um de nós tem ao fazer esse exercício, já que todos somos condicionados às bagagens que acumulamos ao longo da vida. É o lugar de fala (ou, neste caso, o “lugar de vista”).
Na contracapa de James, de Percival Everett, se lê: “Como seriam As aventuras de Huckleberry Finn se a história fosse contada do ponto de vista de Jim, o escravizado que acompanha o garoto em sua viagem pelo rio Mississippi? Este romance é a resposta a essa pergunta”.
Quando li isso, a atração foi imediata. Eu não li As aventuras de Huckleberry Finn, mas já tinha ouvido falar e agora vou querer ler, claro, para ver o ponto de vista de Huck.
James não é um livro brando. A história é dura, mas a candura da relação entre um adulto escravizado e um garoto pré-adolescente desperta sorrisos, dores e surpresas, e, sobretudo, oferece uma visão de como deviam ser os Estados Unidos na época da Guerra da Secessão e de como devia ser a vida de um escravizado naquele tempo.
A aventura da dupla Jim e Huck se passa dentro e às margens do rio Mississippi e é permeada por “senhores”, “feitores”, larápios, coitados, traíras e amigos.
Vale muito a leitura.
Pedro Ernesto Rocha
Coordenador da Equipe de Consultoria do VLF Advogados
Widow’s Bay, série da Apple TV+
Imagine que as séries Midnight Mass e Parks and Recreation tiveram um filho e este filho é Widow’s Bay. A premissa é deliciosa: um prefeito cético tenta transformar uma ilha amaldiçoada da Nova Inglaterra em destino turístico, enquanto os moradores, muito mais sensatos do que ele, insistem que talvez cutucar maldições seculares não seja exatamente uma política pública recomendável. A série é criada por Katie Dippold e tem Hiro Murai envolvido na direção e produção, o que ajuda a explicar esse equilíbrio tão preciso entre absurdo, estranhamento e comédia.
O grande charme está no tom. Widow’s Bay entende que horror e comédia não são opostos, são primos que cresceram na mesma casa mal-assombrada. Há sustos, há mistério, há uma mitologia local saborosa, mas também há uma graça seca, quase burocrática, no modo como a cidade tenta administrar o sobrenatural como se fosse problema de zeladoria. Matthew Rhys, Kate O’Flynn e Stephen Root aparecem entre os nomes centrais do elenco, e a própria Apple descreve a série como uma mistura de mistério e thriller com uma cidade tentando negar sua própria condenação.
Não é uma série apenas “divertida”. Ela tem uma inteligência muito boa para usar a maldição como comentário sobre negação coletiva, turismo predatório, política miúda e essa nossa mania moderna de achar que tudo pode ser convertido em oportunidade de mercado, inclusive uma entidade ancestral possivelmente homicida. Widow’s Bay tem personalidade, elenco afiado e uma segurança tonal rara: sabe quando provocar riso, quando criar desconforto e quando deixar a névoa falar sozinha. É o tipo de série que dá vontade de maratonar, mas também de comentar episódio por episódio, como quem participa de uma reunião emergencial da prefeitura mais amaldiçoada do streaming.
A primeira temporada de Widow’s Bay está disponível na Apple TV+.
Katryn Rocha
Auxiliar de Comunicação do VLF Advogados