Canção de Ninar, livro de Leïla Slimani, e Três Mulheres Altas, peça de Edward Albee
Rafhael Frattari e Anna Júlia Silva Costa
Canção de Ninar, livro de Leïla Slimani
Esta é a obra que catapultou a autora Leila Slïmani para o estrelato literário na França, e foi agraciada com o prêmio Goncourt, maior reconhecimento para os autores de língua francesa.
O livro tem um enredo muito inteligente, e retrata a chegada de uma babá num lar de Paris, quando mulher e marido se dedicam ao trabalho para buscar a ascensão social almejada pela burguesia do início do século XXI. Logo o casal percebe que não se trata de uma babá convencional, como aquelas dos seus vizinhos, porque ela se parece mais com a própria classe dos patrões e é bastante prestativa. Até que alguns episódios começam a afetar a rotina e a convivência da família.
Os personagens são muito bem construídos, a linguagem é simples e direta, compondo um grande livro, o que não se traduz em centenas de páginas. A tensão entre as elites escolhidas e as classes menos privilegiadas numa Paris de imigrantes e necessitados é o ponto alto do livro.
Sugiro a obra com entusiasmo, inclusive os outros livros da autora traduzida, uma das minhas preferidas em atividade.
Rafhael Frattari
Sócio-fundador responsável pela Área Tributária do VLF Advogados
Três Mulheres Altas, peça de Edward Albee
Em 2024, assisti a uma montagem de Três Mulheres Altas no Rio de Janeiro sem ler a sinopse antes, só porque queria conhecer o teatro do Copacabana Palace. Acabei saindo de lá sem lembrar muito bem do lugar, apenas profundamente incomodada pela pergunta que a peça se recusa a responder: existe um momento em que a vida fica melhor?
No palco, três mulheres identificadas apenas como A, B e C: uma jovem, uma de meia-idade e uma senhora já idosa. Entre elas, nenhuma aliança fácil – apenas o acerto de contas honesto, e por vezes brutal, que cada fase da vida faz com as outras.
O que poderia ser uma peça sobre o envelhecimento, revela-se, progressivamente, uma comédia sobre escolhas e sobre a estranheza de olhar com atenção para si e para o outro ao longo da vida. Status, desejo, arrependimento, casamento e a visão que cada fase da vida tem sobre as outras compõem um texto cuja atualidade é quase irritante.
A obra foi escrita por Edward Albee em 1991, logo após a morte de sua mãe, que teria inspirado a personagem mais velha, e estreou na Broadway em 1994. A peça rendeu ao autor seu terceiro Prêmio Pulitzer e um retorno notável ao centro da cena teatral americana, onde já era visto como um dramaturgo ultrapassado.
O humor de Albee é ácido e direto, e o desconforto que provoca é, no melhor sentido, produtivo: uma comédia sobre o que fazemos com o tempo que nos resta.
Agora, a montagem dirigida por Fernando Philbert está em turnê nacional e, em Belo Horizonte, estará em cartaz nos dias 16 e 17 de maio. Recomendo para quem quiser ver a obra mais pessoal de um grande dramaturgo, ou para quem apenas queira conhecer o Teatro do Sesc Palladium.
Anna Júlia Silva Costa
Advogada da Equipe de Contencioso Cível do VLF Advogados